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sábado, 21 de abril de 2007

A POESIA COMO EXPRESSÃO SENTIMENTAL NA 3ª. IDADE (II)

"...Anda à procura de trabalho, de amizade, de amor... chama-se, a si próprio, eterno caminhante.

Quando chega a casa, já cansado, traduz, em poesia, o que lá fora o faz vibrar. Um certo dia, sente-se atraído por uma jovem, passa diariamente pela sua rua, quer que ela o note. Mas... o destino continuava a ser-lhe adverso.
E diz-me: essa rapariga foi, na minha vida,

DOCE VISÃO

Das rosas tinha a graça e a frescura,
Nos lábios um sorrir de terna irmã,
Quando à janela a vi certa manhã,
Numa visão de amor e de ternura.

Não mais pude esquecê-la, nem deixar,
De a contemplar um dia só que fôsse,
P'ra ver no seu olhar gentil e doce,
A doce conjugação do verbo amar.

Mas ai! Ao vê-la um dia manhãnzinha,
Eu reparei que a pobra era ceguinha,
Ao passar-lhe mui perto da janela;

Desde então consagrei-lhe um puro amor,
Que desse ao seu olhar a vida e a cor,
Se um dia eu fosse a luz dos olhos dela.

O culto da natureza também lhe é familiar - ou não tivesse alma de poeta! As flores, o cantar dos pássaros... inspira-no. De entre as poesias que sobre esse tema nos deixou, escolhi a que nos trz uma mensagem,

A FLOR BEIJADA

Das prisões, certo dia um Director,
Olhava entre repulsa e admiração,
Um preso a oscular mimosa flor,
Que apanhara de sobre o sujo chão.

Chamou-o e o recluso lestamente
Acorreu à chamada e perguntou:
- Chamou-me V.Exª. certamente?
- Chamei porque o teu gesto me enojou.

- Senhor! Não condeneis o gesto meu,
Por apanhar a flor e a beijar,
Foi Deus que a perfumou e no-la deu,
E agora os pés do Mundo a iam pisar.

Como esta flor há tanta alma caída
De seres que o Mundo pisa com desdém,
Se alguém os levantasse e desse vida,
Seriam como vós, homens de bem.

Calou-se o preso a lhar o Director,
Que lhe diz comovido, em frases calmas:
- Dizes bem; se na vida houvesse amor,
Havia a redenção da flor das almas.

...E que mais vos poderei dizer sobre um valor cultural da 3ª. Idade, do nosso espaço físico - que só por acaso conheci?

A recolha das suas poesias constitue um dos primeiros trabalhos do património da Universidade Internacional para a Terceira Idade - que estamos promovendo."

domingo, 15 de abril de 2007

A POESIA COMO EXPRESSÃO SENTIMENTAL NA 3ª. IDADE

Vou começar hoje a publicar um texto extraído da Gerontologia - Revista da Universidade para a Terceira Idade.


Conferência realizada no 50º. aniversário dos
Inválidos do Comércio, em 28 de Abril de 1979,
por CELESTE SOARES DE MIRANDA, licenciada
em Ciências Económicas e Financeiras.


"Vou apresentar-lhes um trabalho de análise, feito na UITI, sobre a poesia como expressão sentimental na 3ª. Idade. Trata-se de um homem a quem, como a tantos outros, a vida foi adversa mas que conservou sempre uma dignidade e nobreza de sentimentos - fácil de apreciar nas poesias que nos deixou e que só agora, com grande pena nossa, damos a conhecer, quando a terra guarda o seu corpo para a eternidade.
De nome Brasilino Carvalho de Sousa, apareceu um dia como tantos outros que subiram as escadas de 85 da Rua das Flores, em busca de auxílio. Não procurava a esmola aviltante, mas alguém que o ouvisse, que o encaminhasse, que compreendesse a grandeza da sua alma. Estava na terceira idade, sem emprego, a taberna não o atraía, não tinha amigos... talvez porque amava a natureza, o belo e a bondade nas suas diversas expressões.
Contou-me a sua vida, as suas ansiedades... Pensei, enquanto o ouvia, encaminhá-lo para as reuniões de convívio da Misericórdia de Lisboa. Assim fiz.
O Brasilino encontrou o seu ambiente, um ambiente em que se podia manifestar - tinha quem o ouvisse e sentisse as mensagens da sua alma: a sua poesia.
Encontrara, enfim, o calor humano que há muito procurava e, certamente, terminou os seus dias feliz precisamente naquele em que líamos, em público, pela 1ª. vez, uma das suas poesias - cruel coincidência!
Os seus sentimentos, como disse, manifesta-os em poesia.
É assim que, numa Páscoa, dedica à mulher que nunca deixara de amar, o soneto,que intitula,


SEXTA-FEIRA DE PAIXÃO


Se eu pudesse arrancar-te o coração,
Amortalhá-lo e abrir-lhe a sepultura,
P'ra seu repouso em esquife de ternura,
Dar-lhe-ia o meu peito por mansão.

E se ele no sepulcro do meu peito,
Pudesse em meu amor ressuscitar,
E de novo ir em teu seio habitar
Na sã ressurreição de um ideal perfeito,

Verias como aos nossos corações,
Teciam novos credos e orações,
Aleluias de eterna adoração;

E a celebrar nossa afeição fagueira,
Não seria somente a sexta-feira,
Mas uma vida inteira de paixão.

O Brasilino, quando jovem, conheceu o amor. O futuro aparecia-lhe risonho, fantasiava a Família e a Vida... aquela Vida e aquela Família que queria.
Porém, a infelicidade não o largava. A morte desafiou-o sob a máscara da tuberculose. Assim, passou grande parte da sua vida nos sanatórios e nos hospitais. A sua fantasia mantinha-o firme no propósito de construír o Mundo que idealizou, e em que a sua namorada prevalecia, sempre, no lugar superior.
Quando, fisicamente recuperado tenta voltar à sua vida afectiva, é ainda a infelicidade que vai ao seu encontro. Aquela que o fizera lutar contra a morte, na esperança de vir a realizar o sonho da sua juventude - casara.
No entanto, é com aceitação toda feita de bondade que exprime o seu sentir neste outro soneto.

TUDO ACABOU


Parti! Hoje voltei, tudo acabou
Na dura realidade que, fatal,
Desfez em fumo a aurora triunfal
Que o nosso casto amor iluminou.

Os castelos de sonho que formou,
Meu coração à luz desse ideal,
Esse outro que depois foi meu rival,
Na minha longa ausência derrubou.

Julgando-me já morto tu casaste,
E hoje que voltei, vi que ficaste
Perturbada a olhar-me... tens razão.

Devolvo-te o retrato, meu amor,
Em troca só te peço por favor,
Me devolvas também meu coração.

Duante o tempo que passara no sanatório, o Brasilino, fortalecera-se interiormente, aprendera a querer - como um verdadeiro asceta.
Para alcançar o amor acreditara na cura, acabando por vencer a doença. Mas então... agora? Que lhe interessava a vida se perdera a crença que o animara na luta?"


(CONTINUA)

https://www.malhanga.com/musicafrancesa/becaud/au_revoir/

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