sexta-feira, 3 de junho de 2022

 



UMA HISTÓRIA DE DIVIDIR

Laranjas
Fernando Botero (1932-)
Um divisor dividia
muitíssimo devagar.
A divisão bem podia,
dizia ele, esperar.

O dividendo, mais lesto,
não podendo perder tempo, 
dia a dia ia perdendo
a paciência e o resto.

E, encarando o amigo, 
falava-lhe duramente:
«Não posso contar contigo,
és um inquociente!»

                     Manuel António Pina

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

 

OBRA ÉDITA · FACSIMILE · INFO
Fernando Pessoa

Foi um momento

Foi um momento

O em que pousaste

Sobre o meu (braço,)

Num movimento

Mais de cansaço

Que pensamento.

A tua mão

E a retiraste.

Senti ou não?

Não sei. Mas lembro

E sinto ainda

Qualquer memória

Fixa e corpórea

Onde pousaste

A mão que teve

Qualquer sentido

Incompreendido,

Mas tão de leve!...

Tudo isto é nada,

Mas numa estrada

Como é a vida

Há uma coisa

Incompreendida...

Sei eu se quando

A tua mão

Senti pousando

Sobre o meu braço,

E um pouco, um pouco,

No coração,

Não houve um ritmo

Novo no espaço?

Como se tu,

Sem o querer,

Em mim tocasses

Para dizer

Qualquer mistério,

Súbito e etéreo,

Que nem soubesses

Que tinha ser.

Assim a brisa

Nos ramos diz

Sem o saber

Uma imprecisa

Coisa feliz.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020


Trazia consigo a graça
das fontes quando anoitece.
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens quando desce.
Andava como quem passa
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.
Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.
E seguia o seu caminho,
porque era um Deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
duma flauta que tocava.
Eugénio de Andrade
In "12 Poemas"

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