ANDORINHA NEGRA
“Sorriso, é a manifestação das lábios, quando os olhos encontram o que o coração procura!”
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025
segunda-feira, 2 de outubro de 2023
Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo: – a luz do dia!
– Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração
Da minha fantasia!
Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar!
– Se desejo o teu corpo é porque tenho
Dentro de mim
A sede e a vibração de te beijar!
Se fosses água – música da terra,
Serias água pura e sempre calma!
– Mas de tudo que possas ser na vida,
Só quero, meu amor, que sejas alma!
António Botto
Foto de Aleksandr Krivickij
sexta-feira, 3 de junho de 2022
PENSAR DE PERNAS PARA O AR
Pensar de pernas para o ar
é uma grande maneira de pensar
com toda a gente a pensar como toda a gente
ninguém pensava nada diferente Que bom é pensar em outras coisas
e olhar para as coisas noutra posição
as coisas sérias que cómicas que são
com o céu para baixo e para cima o chão
A Ana tinha um ió-ió muito bonito
que fazia tudo o que ela queria
quando ela dizia "para cima" o ió-ió ia para baixo
quando ela dizia "para baixo" o ió-ió ia para cima
Como gostava muito daquele ió-ió
a Ana fazia de conta que não percebia
para o ió-ió ir para cima dizia "para baixo"
para o ió-ió ir para baixo dizia "para cima"
E como o ió-ió gostava muito muito da Ana
era o ió-ió mais obediente que havia
quando ia para cima fazia de conta que ia para baixo
quando ia para baixo fazia de conta que ia para cima
que fazia tudo o que ela queria
quando ela dizia "para cima" o ió-ió ia para baixo
quando ela dizia "para baixo" o ió-ió ia para cima
Como gostava muito daquele ió-ió
a Ana fazia de conta que não percebia
para o ió-ió ir para cima dizia "para baixo"
para o ió-ió ir para baixo dizia "para cima"
E como o ió-ió gostava muito muito da Ana
era o ió-ió mais obediente que havia
quando ia para cima fazia de conta que ia para baixo
quando ia para baixo fazia de conta que ia para cima
poema de Manuel António Pina
in Gigões e Anantes
O ANO EM QUE O CALENDÁRIO AVARIOU
(Manuel António Pina)
Foi numa noite de Natal.
Estávamos em maio mas não fazia mal, tinha havido uma avaria no calendário e naquele ano saiu tudo ao contrário: o Natal em maio, a primavera em novembro, o 1.º de abril a 22 de setembro.
Eu que tenho mais de 100 anos não me lembro de ter feito tanto calor como em dezembro.
Houve semanas com cinco dias, outras inteiras, uma em julho teve 16 segundas-feiras!
Até houve a semana dos nove dias.
Muitas promessas foram naquele ano cumpridas!
Foi um ano tão maluco,
tão completamente bissexto,
que para muitos serviu de pretexto
para trocar as voltas ao calendário
e festejar todos os dias o aniversário.
Naquele ano espantoso
cada um podia ter à vontade
as suas manias
porque todos os dias
eram todos os dias.
Eu que não sou menos que os demais, naquele ano tive vinte natais.
Estávamos em maio mas não fazia mal, tinha havido uma avaria no calendário e naquele ano saiu tudo ao contrário: o Natal em maio, a primavera em novembro, o 1.º de abril a 22 de setembro.
Eu que tenho mais de 100 anos não me lembro de ter feito tanto calor como em dezembro.
Houve semanas com cinco dias, outras inteiras, uma em julho teve 16 segundas-feiras!
Até houve a semana dos nove dias.
Muitas promessas foram naquele ano cumpridas!
Foi um ano tão maluco,
tão completamente bissexto,
que para muitos serviu de pretexto
para trocar as voltas ao calendário
e festejar todos os dias o aniversário.
Naquele ano espantoso
cada um podia ter à vontade
as suas manias
porque todos os dias
eram todos os dias.
Eu que não sou menos que os demais, naquele ano tive vinte natais.
UMA HISTÓRIA DE DIVIDIR
Um divisor dividia
muitíssimo devagar.
A divisão bem podia,
dizia ele, esperar.
O dividendo, mais lesto,
não podendo perder tempo,
dia a dia ia perdendo
a paciência e o resto.
E, encarando o amigo,
falava-lhe duramente:
«Não posso contar contigo,
és um inquociente!»
Manuel António Pina
Manuel António Pina
Subscrever:
Mensagens (Atom)
https://www.malhanga.com/musicafrancesa/becaud/au_revoir/
-
Olhos negros Tristes como um lamento, Vinde matar minha saudade, Vinde acabar com meu tormento. O tempo passa E eu sigo pela vida Sozinha, ...
-
Ao meu filho Miguel A maior dor do mundo Não tem tamanho Nem fundo, Não tem princípio Nem fim. Não tem peso Nem medida. É uma dor bem senti...