sábado, 25 de junho de 2005

À PROCURA DO TEMPO PERDIDO

Ruas ruidosas, carros disparados em corrida louca, todos como que empenhados na ideia de quem vai chegar primeiro.Pessoas que se cruzam, que se chocam, que se acotovelam, ora agressivas, ora indiferentes, sem darem pela passagem de um rosto conhecido, sem um simples olhar de fraternidade ou compreensão. Expressões fechadas, palavras secas, desagradáveis, sempre prontas a saltar e a ferir. Olhares hostis de olhos que vendo são cegos, porque aliados a corações insensíveis só se debruçam, obsecada e egoisticamente sobre o seu "Eu", sobre o seu mundo interior, limitado pelas suas conveniências, sem tempo para dedicar aos outros.
Todos os dias o espectáculo degradante dos que se insultam e não respeitam o direito de precedência nas filas dos transportes públicos.
Aqui, mesmo a nosso lado, está o que poucos vêm: corações que há muito esperam pela palavra mágica que dulcifique e preencha o vácuo de uma vida de solidão; ombros que se vergam sob o peso dos anos; mãos implorantes que se estendem, como aquelas mãos tristes e enrrugadas que recolhem as poucas moedas que os menos indiferentes deixaram nelas caír, sem contudo se deterem.
Toda a vida pujante dum século febril rodopia e entontece, envolvendo na sua teia os corações e as almas. Uns querem agarrar o tempo, outros procuram o tempo perdido.
6/11/70

terça-feira, 21 de junho de 2005

EVOCAÇÃO

Minha enorme e infinita saudade, minha amiga inseparável, de múltiplos aspectos, tu palpitas na água cantante daquela fonte, rodopias no seu redemoínho, onde te dissipas, para logo ires surgir naquela flor singela, que além me sorri, com olhar malicioso de quem recorda as minhas traquinices de criança. Também estás mais além, sentada naquele banco, de olhar bonacheirão e resignado de quem passa a vida de pé para dar comodidade aos que, fatigados, nele se sentam, gozando a frescura dos poentes ou a sombra acolhedora das árvores seculares, as mesmas velhas amigas que me viraram esborrachar o nariz naquela bica de água que ainda hoje, ao ver-me passar, me brinda com um olhar condescendente, saudosa daquela menina que eu fui.
Além, naqueles degraus onde tantas vezes, já adolescente, me sentei tecendo sonhos cor-de-rosa, que mais tarde feneceram, hoje estás tu a meu lado, enlaçando-me pelos ombros e oferecendo-me o teu peito maternal para que nele recoste a minha cabeça e recorde...
Naquele velho muro gasto pelo tempo, as folhas da hera acenam-me, amigavelmente. Como naquelas tardes tudo vibra e palpita, tudo tem uma nova dimensão e um ar evocador. Através do zumbido dos insectos que esvoaçam, preguiçosamente, estonteados com o sol radioso e festivo que redime as almas e faz com que as cabeças se ergam da prostração, adivinha-se uma voz amiga e distante, que perdura, indestrutível, pois faz parte integrante de mim mesma. Nessa voz também tu estás, saudade!
Até naqueles livros de estudo, tantas vezes folheados e relidos, cada letra é um pequeno coração que pulsa ao compasso do meu. Vejo-te aí, primeiro de bibe e laços nas tuas tranças irreverentes, depois menina e moça que começa a dar conta de si e a mirar-se na própria sombra. Saudade, diz-me, não tens acaso saudade desse tempo?...
Recordas-te quando entravamos as duas naquela velha Igreja, ambas de alma jovem e sadia, transbordante de ternura para com o nosso Pai do Céu? Como era repousante permanecer na penumbra daquelas paredes, alheadas do bulício exterior, sob o olhar benévolo e casto dos santos, como que sentindo um desprendimento das coisas terrenas...
Finalmente, naquela campa igual a tantas outras, aonde Alguém desceu para sempre, atinges a tua maior proporção e quando me olhas, com teus olhos de água, é quando eu sinto mais a afinidade dos laços que nos ligam. Creio que já não saberia viver sem ti!
Os meus passos vagarosos e cadenciados, levam-me para diante, mais além, por entre o mundo das minhas recordações... Sorrio aqui, choro acolá e prossigo sempre, porque não consigo parar. As lágrimas purificam, o sorriso é uma bênção com que Deus nos enriquece.
Toda a minha vida passa nun écran criado pela minha mente, a princípio num ritmo febril, inquietante, depois mais vagarosamente, com o jeito de quem quer ficar. É uma sucessão de sonhos, ideais, descrenças, desilusões, um caír para logo me levantar, na ânsia desmedida de atingir o limite desejado.
Às vezes ainda entro na mesma Igreja, agora com menos sonhos, mais tristes realidades, mas eternamente agradecida por Deus me ter concedido uma alma sensível, capaz de sentir a dor de outros corações, rir com o riso de outras bocas, chorar com o pranto de outos olhos.
Quando eu não sentir, nem vibrar, nem te tiver a ti, MORREREI!